Eu poderia morar em uma distopia
Aquele em que eu falo sobre meus gostos peculiares.
Meu mundo perfeito é todo início de distopia. Não tem nada que me atraia mais que um mundo organizado, porcionado, bem limpo e feliz. Imagine viver livre de decisões difíceis, ter seus caminhos já abertos a sua frente, o trabalho doméstico organizado em conjunto com o trabalho não-doméstico, a criação dos filhos ter uma cartilha. É sério, isso é uma demanda minha de terapia. O desejo por um manual de instruções da vida, junto com uma bula e uma pílula de felicidade.
Claro, até a página 2. Afinal, são distopias.
De cara, eu quero morar no mundo de O Doador de Memórias de Lois Lowry. Nesse mundo, toda a vida é organizada em etapas de idade. Há marcos corretos que você deve atingir a cada idade, como sua primeira bicicleta, seu primeiro casaco com zíper, o primeiro ano que você começa a voluntariar na comunidade. Cada unidade familiar, composta por uma mãe, um pai e um casal de filhos tem seu dia organizado entre as refeições em família, uma conversa em que falam sobre seus sonhos e depois, os pais vão para o trabalho, os filhos para o colégio.
Sua profissão é escolhida por uma comissão da cidade. Esse grupo observa as crianças enquanto elas crescem e as designam para a sua profissão aos 12 anos. Você pode trabalhar como mãe biológica, no centro de novas crianças, na casa de acolhimento de idosos, pode trabalhar na pesca ou, como o protagonista desse livro, você pode ser escolhido para uma profissão diferente: o recebedor de memórias.
Vamos fazer uma pausa aqui. Sou só eu a louca que gostaria de ter regras tão claras para a vida? Além das distopias, eu gosto muito dos romances de época por causa dessa mesma qualidade. Na Inglaterra dos 1800, as pessoas sabiam o que dizer, quando dizer, quando calar. Elas entregavam cartões para anunciar sua presença, para que ninguém fosse pego desprevenido e, ainda, era uma possibilidade responder que você estava indisposto naquele dia para recebê-lo. Existiam habilidades que você deveria ter enquanto pessoa, como ser bom de conversa, tocar um instrumento musical, praticar o canto. Mas jamais você seria pego de calças curtas se estivesse dentro da norma.
Jonas, o protagonista de O Doador de Memórias, é escolhido para essa profissão diferente e ele começa a entrar em contato com as memórias perdidas daquela civilização, como memórias de dor, de guerra, de violência ou memória de cores, de pássaros, de amor, de natal. É aí que descamba a minha fantasia distópica, junto com ele.
Para caber em um mundo regrado, o que precisamos tirar do nosso convívio? Basicamente, tudo que faz parte da nossa vida, transformando-nos em humanóides sem autonomia e livre-arbítrio, um lugar em que os diferentes são eliminados, literalmente, sob pena de fazer ruir o sistema. Jonas é inundado com memórias de vida, de sentimentos, de ternura e isso torna difícil de cumprir seu papel.
A história se desdobra em mais 3 livros, somente 2 publicados no Brasil: A Escolhida e O Mensageiro. Sendo que o quarto livro recupera a história desde o primeiro livro sob uma outra perspectiva. Cada livro vai habitar um vilarejo diferente dentro deste “país” distópico, trazendo uma relativa independência para as histórias individuais dos livros, apesar de existirem elementos e personagens que as unifiquem.
Quando eu reclamo para a minha psicóloga sobre querer o manual da vida, ela dá risada. Ela diz que como uma pessoa apaixonada por literatura pode dizer uma coisa dessas. E tem razão. O que me atrai na literatura é justamente a diferença. O que faz meus olhos brilharem, me traz aproximação com um mundo que é hostil, sim, é a autenticidade de cada pessoa, cada personagem. Se eu amo alguém, eu não a amo porque ela é parecida comigo, eu amo no detalhe que diferencia. Amo que minha melhor amiga lê coisas completamente diferentes do que eu leio, ela adora personagens que eu detesto e, ao mesmo tempo, somos capazes de conversar sobre e achar um campo em comum.
A quadrilogia de O Doador de Memórias é classificada como infanto-juvenil, mas não se deixe enganar por preconceitos etários. São livros bastante completos e complexos, com uma riqueza de discussões possíveis a serem feitas a partir dos livros. Os personagens, imperfeitos numa sociedade perfeita, demonstram o valor da individualidade de cada ser. E no todo, apesar de um tanto sombria, a série termina de forma bastante satisfatória, aplacando meus desejos de mundo distópicos.
Nessa semana:
Li Assim na Terra como Embaixo da Terra da Ana Paula Maia e me apaixonei. Um livro extremamente curto, de terror, talvez também distópico, mas envolvente como poucos. O dia a dia de prisioneiros numa colônia penal isolada do resto do país e a loucura dos que ali convivem.
Todo o Caminho até o Rio da Elizabeth Gilbert. Eu sou uma leitora eclética, vocês sabem. Adoro o bestseller Comer, Rezar e Amar e estava louca para ler o novo livro da autora. Ela não decepciona. A escrita da Liz tem uma qualidade de inocência. Eu, pelo menos, compro cada palavra que ela escreve, sinto a honestidade daquilo que ela está contando, como ela se coloca no texto até para falar de seus defeitos mais íntimos, vergonhas que gostaríamos todos de esconder e temas problemáticos que não ficam bem em biografias. Chorei ao final do livro.
Dura para Sempre e Depois Acaba de Anne de Marcken. Eu acho que nem cheguei a falar aqui sobre Orbital, quando o li, mas na minha cabeça, os dois livros tem relação. Ambos são livros contemplativos, constróem imagens muito bonitas, mas…para o meu gosto, que não levam a lugar nenhum. Falta um enredo, sabe? Uma pena.
Assisti O Mandaloriano e Grogu numa das noites mais frias desta semana. Claramente é um filme Star Wars, com o que a franquia entrega de melhor: ação e humor. Mas tem elementos diferenciadores muito legais também, os cenários estão diferentes e a relação de paternidade entre os personagens dá todo um charme à história.




Não conhecia esse livro, fiquei curiosa, mas não quero sofrer quando terminar de ler tal qual na distopia, é possível? hahah
Sei bem como é o desejo pelo Manual