Infinitamente gorda
Aquele em que eu falo sobre ser gorda.
Eu fui uma criança e adolescente gorda. Quer dizer, hoje, olhando pra trás, eu vejo que eu era uma criança gorda pelos padrões dos anos 90. Tinha uma barriga estilo pochete e o rosto mais bochechudo que as crianças ditas magras. Com olhos de hoje, não diria que era gorda de forma nenhuma.
Ao menos, não até a adolescência. Na adolescência, eu fazia juz ao nome gorda, era obesa de grau mórbido. Termos clínicos que tornavam a experiência ainda mais dificultosa. Quando comecei a ficar mais velha, presa em um padrão de seletividade alimentar e desregulada pela necessidade de convívio social mais ativo, minha resposta foi engordar bastante.
Depois, no início da vida adulta emagreci, mas até hoje, ser gorda ou ter sido gorda faz parte da narrativa da minha vida. É impossível comentar sobre quem eu sou sem passar por esses anos em que me escondia, ia a médicos, tomava remédios, fazia dietas malucas e comia muito salgadinho e chocolate.
Eu fiquei pensando nessas coisas porque li Infinita da Camila Maccari. Nesse livro, uma jovem sem nome estava tomando uma cerveja no bar local e quebra a cadeira em que está sentada, o que acaba desencadeando uma série de comportamentos e padrões mentais que culminam no final da história.
No livro, encontrei tanta semelhança com o que eu vivi que fiquei impressionada. São experiências como ter roupas no armário “para quando emagrecer”, ou seja, as roupas de meta, calças apertadas que não passavam nem na coxa, blusas que me faziam parecer um salsichão, mas que um dia seriam usadas. Ou experiências como a ida a farmácia para se pesar. Nos anos 90, início dos anos 2000, não era tão comum ter balança em casa para fazer o controle de peso, então, toda vez que cruzávamos com uma farmácia, era comum entrar e se pesar, torcendo para que o número tenha diminuído.
Por sorte, não tive uma mãe como a da protagonista. Minha mãe me apoiava da forma que podia, dentro dos limites da cultura da época. Naqueles anos, a pior coisa que poderia acontecer com uma mulher era ser gorda, limitava a sua vida em todos os sentidos, desde o vestir a quais lugares você poderia frequentar, encontros românticos que jamais teria e até empregos, pessoas gordas são até hoje menos contratadas que pessoas magras, já que gordura é vista como desleixo.
A protagonista tem o amor do namorado, que quer ficar com ela e apoia-a nos seus projetos. Porém, a mãe e a sogra são pessoas que todo gordo já encontrou na vida, são a maioria na verdade. Aquele tipo de pessoa que sempre vai falar sobre o que você está comendo, sobre o seu corpo e o corpo de outras pessoas, ou até salientar a sorte que a protagonista tem em ter um namorado que a ame, não dizendo, mas deixando claro que ter amor sendo uma pessoa gorda é uma raridade. Não somos merecedores de amor a depender do que a balança mostra.
O livro também traz a experiência de idas ao médico sendo uma pessoa gorda. Bom, todo médico se torna nutrólogo. Você vai ao médico reclamar de dor de cabeça, mas a prescrição é de perda de peso. Todas as doenças que você tiver vão se reduzir a isso. Até uma profissional do reiki fala como a protagonista deve se odiar por ter o peso que tem.
Eu não sei se essa é uma percepção de quem nunca teve problemas com a balança, o quanto isso se torna a sua vida, ser sempre reduzida ao seu tamanho, mas esse livro nos faz experimentar de forma muito íntima como é ser gorda.
Não vou comentar sobre para que lado a história caminha porque entendo que faz parte da leitura chegar lá junto com a personagem. Vou só dizer que, estranhamente, me deixou com mais vontade de ler Graça Infinita.
Quero recomendar também o outro livro da Camila, Dias de se Fazer Silêncio. Nesse livro, uma menina conta a história da morte do irmão e como essa morte de desdobra na vida de toda a família. São livros completamente diferentes, mas de extrema qualidade literária, com profundidade, tratando de temas fortes.
Também quero deixar como recomendação o livro que está sendo publicado em partes pela Myriam Scotti aqui no Substack. Fala sobre o mesmo tema, trazendo a mesma familiaridade que Infinita me trouxe, mas indo por caminhos diferentes. Estou gostando bastante e já saíram quatro partes.
Nessa semana:
Nada Nasce ao Luar de Torborg Nedreaas. Achei que o livro se prejudicou pela propaganda, recomendado para leitores de Elena Ferrante e Tove Ditlevsen. É um bom livro, mas não traz a profundidade escura de femininos inquietos como a dessas autoras. Trata-se da história de uma moça e seus anos de mocidade numa noruega conservadora.
Terminei de ler a trilogia autobiográfica da Deborah Levy, que inicia com Coisas que Não Quero Saber. A partir da própria vida, ela escreve sobre ser mulher, ser mãe, ser escritora, sobre a pequeneza da vida. Eu amo esse tipo de livro, que parece pegar assunto do nada e transformá-lo em literatura, me lembra Patti Smith nesse aspecto.
Li também Festa no Covil. Um livro extremamente curto, para se ler de uma vez só, sobre um menino, filho de narcotraficante no México, e sua busca por um hipopótamo anão da Libéria. Por essa visão infantil, temos acesso a realidade do tráfico vista de dentro.




Respeitando um limite de comparação, estou vivendo uma parte de uma condição colocar você em uma categoria social, que é a idade. Boa parte das consultas com médicos acabam reduzidas no "É normal para a idade", além de ser tratado em alguma ocasiões com uma certa infantilidade. Incomoda, mas algumas vezes chega a ser engraçado.
Obrigado pelo texto e pelas indicações de leitura
É muito cruel como as pessoas se sentem no direito de comentar abertamente o corpo alheio. Eu sou gordinho desde meus 9 anos, na adolescência cheguei a perder 10 kg em 1 mês (ficava sem comer), só estou conseguindo emagrecer agora porque, pela primeira vez, estou fazendo isso por mim, com um carinho por mim mesmo e meu corpo, e está sendo mais fácil. Minha motivação deixou se ser raiva de mim mesmo, deixou de nascer da opinião do outro.